Goiás tem 9.423 quilômetros de rodovias sem asfalto; produtor reclama de prejuízos
A produção goiana no campo triplicou nos últimos dez anos. Mas a infraestrutura não acompanhou o ritmo para escoar os produtos. Os quilômetros de rodovias estaduais pavimentadas, por exemplo, aumentaram 65% no período. O que para o setor ainda significa perder parte da mercadoria no caminho até o mercado, ter custo elevado em 50% ou mais no frete, quando as condições ficam ruins, e até mesmo ter de intervir em trechos com recursos próprios para tornar o trânsito possível. Dificuldades que levam à perda de competitividade.
“Todo ano é uma buraqueira e temos de passar a patrola nós mesmos, porque é muito movimentada”, conta o produtor de grãos Sétimo Passinato sobre trecho da GO-341 em Mineiros, no sul goiano. Em ano de eleição, as promessas sobre o asfalto sempre voltam, diz, mas depois não se concretizam. História que acompanha há 25 anos. “Esse ano não apareceram para fazer manutenção, não tem asfalto e nem toda ela tem pedra, por isso a gente da cidade mesmo que conserva”, diz ao ressaltar que ainda assim é difícil o tráfego.
O frete aumenta, pneus e molas dos caminhões quebram constantemente, o que com chuva torna ainda mais difícil escoar os grãos. “A gente se une, porque agora frigoríficos e usina terceirizam caminhão, mas os menores não. O nosso custo subiu mais de 400%, a estrada que antes aguentava hoje não aguenta mais, porque há transporte dia e noite. Para arrumar, tem de sofrer primeiro”, detalha. A união também fez a força para consertar pontes, ou ficariam literalmente ilhados, sem acesso às principais rodovias.
Foram mais de R$ 100 mil investidos só nas pontes. “Só eu coloquei uma viga que custou R$ 8 mil, mas se perco a carga de soja me custa bem mais.” Em plena colheita da segunda safra de milho, a preocupação com a logística volta e não está restrita à região de Passinato. Segundo o Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), os produtores rurais do Estado alegam dificuldades em pelo menos 2.523 quilômetros de GOs que não possuem asfalto, em 35 trechos destacados como importantes para transportar a produção.
Sem pavimento
Porém, ao todo, Goiás ainda possui 9.423 quilômetros sem pavimento somente em rodovias sob a responsabilidade do governo estadual. “Os problemas são evidenciados com a safra, quando se trata de grãos, mas para aves, suínos, bovinos e leite é uma infraestrutura utilizada o ano todo”, explica o analista técnico do Ifag, Alexandro Alves. Ele pontua que os desafios começam nas estradas vicinais, municipais, na porta das fazendas e se estendem para rodovias estaduais e até mesmo federais.
“Sem pavimentação, a deterioração é maior do que o que ocorre na estrada pavimentada. Nos períodos de chuva, há erosão e na seca, poeira.” Alves explica que os desafios são diversos de buracos à sinalização e que os pontos identificados são apresentados pela Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg) aos órgãos responsáveis, como a Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop). “Há rodovias mais prioritárias, com demandas urgentes”, diz.
Ele pontua que há planejamento, mas a burocracia e falta de recursos no momento necessário é um dos principais gargalos, o que faz na urgência o gasto ficar maior. “Já tivemos vários casos emblemáticos de rodovias em grau de degradação que era quase impossível o tráfego e as transportadoras se negavam a fazer frete. Quem paga a conta são os produtores rurais.” Com cargas perecíveis é preciso escoar de alguma maneira e o frete em alta é consequência vivenciada, pressiona os custos, desanima o setor e termina por impactar toda a população.
O analista compara a situação enfrentada há anos com o que foi vivenciado quando ocorreu a greve dos caminhoneiros no primeiro semestre de 2018. Na ocasião, animais morreram por inanição porque a chegada de insumos foi interrompida e a produção que não podia sair das propriedades também foi perdida, como foi o caso de milhões de litros de leite. Só que esse cenário ocorre mesmo sem greve quando as condições das estradas se deterioram.
“No geral, as rodovias (GOs) estão em estado regular a bom pela recuperação que foi feita, o que é um ponto positivo, mas ainda falta muito em termos de rodovias estaduais não pavimentadas e vicinais, que são fundamentais para o processo de escoamento da produção e chegada de insumos. O produtor se vê em ilha econômica, de modo que não tem como receber insumo na propriedade e tem rentabilidade reduzida.”
As regiões nordeste, sudoeste e leste são apontadas como as mais desassistidas e que têm grande número de propriedades rurais. O produtor rural e presidente licenciado do Sistema Faeg, José Mario Schreiner, destaca que o pedido de muitos não é pela total pavimentação, mas sim para que pontos estratégicos de estrangulamento e descidas maiores recebessem asfalto, o que poderia amenizar o problema. “A infraestrutura pode dar retorno para o Estado com aumento de arrecadação por meio da produção.”
“A GO 306, de Mineiros a Chapadão, está em obras há mais de três anos e na época de chuva com a criação de aves chega a faltar ração porque não tem como chegar lá e a situação fica crítica. E há a falta de capacidade de investimento das prefeituras, o que tem trago prejuízos enormes, o que impede de aumentar a produção e empregos, porque falta o básico para trabalhar, infraestrutura”, diz ao pontuar que a resposta é lenta apesar de ter avançado.
Para ter ideia, somente a partir de 2014 a quilometragem das GOs com asfalto ultrapassou a quantidade que há das sem pavimento. Questionada desde o dia 15 de agosto sobre as providências com relação às estradas que mais preocupam o agronegócio goiano a Agetop não enviou nenhum retorno para a reportagem até o fechamento desta matéria no dia 23 de agosto.
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Foto: Divulgação/Internet
Entre Mineiros e Caiapônia


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